Do som “engarrafado” ao som como água

by Miguel Caetano on 18 de Fevereiro de 2007

Sons, sons e mais sons vindos de todos os lados, a jorrarem livremente. Cascatas de notas musicais a inundarem o espaço público e os ambientes domésticos, gerando uma verdadeira noosfera, uma camada flutuante de ideias resultante da interacção entre diferentes mentes humanas. Esta caordem cognitiva, que podemos imaginar como uma convivência heterodoxa de todos os estilos musicais registados, desde o Hip-Hop ao Fado passando pelo Jazz ou pela electrónica experimental, é o que acontece quando a música que estava antes “presa” em garrafas – como se se tratasse de um néctar escasso, logo dispendioso – passa, por força da evolução tecnológica, a ser livre.

Porque, em todo o caso, é sempre iNetBloc vol2 - capampossível controlar a abundância. E neste processo inevitável, o P2P será apenas um mero facilitador. Ao enveredar pela digitalização, a indústria musical não sabia que estava a abrir a caixa de Pandora que iria condená-la à obsolescência. Ironicamente foi o formato proprietário MP3protegido por patente pelo Instituto alemão Fraunhofer – que permitiu esta explosão. Mesmo antes do Napster, as pessoas já ripavam e trocavam faixas através da Internet. Parte desta história é contada por Michael Gregoire do BlocSonic no texto que serve de apresentação ao segundo volume da NetBloc (via), com o subtítulo “A DRM matou a máquina da música como produto” , uma compilação dos melhores lançamentos de netlabels sem restrições de estilo ou nacionalidade. O PDF do excelente booklet que acompanha esta edição pode ser lido aqui. Deixo em baixo alguns parágrafos em que o Michael critica o “roubo” cometido pela indústria através do actual sistema de preços das faixas comercializadas online:

.99 cents per track has become the de facto standard for selling digital
downloads. iTunes has shown that average listeners are willing to be
suckered again. Even independent artists/labels who are supposedly
competing against the goliath that is the major music industry have
joined the bandwagon. Independent music download stores are now
charging .79-.99 cents per track. Why not? It’s easy money. Let’s see…
no longer is there a distribution cost for the label, nor is there a need
for packaging costs and marketing costs can be significantly lower.
Wow… a fraction of the overhead that’s incurred with CDs. Add to that
the fact, that digital downloads are actually copies of the source file on
a server (duplication costs? what? fugeddaboudit!), it’s a wonder it took
so long for the music industry to make the jump. Why is it that when
music fans have more power than ever to choose what they listen to,
they submit to such a controlled system?

The thing is, even a CD single can cost as low as 1.99 and that’s with
2-3 tracks, packaging, distribution, duplication, marketing included in
the overhead… and that still leaves room for profit. WTF?? I’m shocked
that people have latched onto the .99 cent pricing scheme the way
they have.

Eis senão que surge todo um novo sector alternativo, netlabels e artistas independentes que preferem situar-se deliberadamente à margem deste jogo que trata a música como uma mercadoria. As majors serão obrigadas a reagir. A solução só poderá passar por encarar definitivamente a música como um serviço e não como um produto, como refere Thomas Wironen, leitor de Bob Lefsetz. A receita está em disponibilizar os intrumentos que proporcionem uma experiência diferente: DVDs, edições especiais, T-Shirts, performances, etc.

A propósito desta metáfora da música como água, o futurólogo Gerd Leonhard escreveu em 2004 um texto que adivinha muito do que deverá ocorrer no mundo da música no sentido da constituição de um novo ecosistema criativo em que se possa aceder a uma jukebox celeste a partir do nosso computador, leitor portátil, telemóvel ou televisor da mesma forma que se paga pelo telefone, água canalizada, electricidade, televisão por cabo ou mesmo Internet, como uma taxa opcional e acessível à maioria da população – uma licença global voluntária. E como ninguém poderá ouvir todos os sons que estarão permanentemente a ser produzidos, samplados e remisturados, a capacidade de captar o tempo de outrém passará a ser factor crucial nessa nova economia centrada na atenção. Porque para navegar nesse mar de sons serão precisos faróis e barqueiros que nos orientem em direcção às águas sónicas que nós iremos desejar navegar a cada momento.

Nota: a imagem fantástica de uma torneira que acompanha este post é de Al-Fassam e está disponível aqui sob uma licença Creative Commons.

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