E finalmente foi lançada a loja online da BitTorrent.com anunciada em Outubro passado. Tal como se esperava, a experiência proporcionada não parece ser lá muito compensadora se compararmos com a oferta ilimitada dos trackers públicos e privados do protocolo de rede BitTorrent: apenas pouco mais de cinco mil títulos em catálogo entre filmes, séries de televisão, jogos para PC e vídeos de música. Os episódios de séries e clips custam 1,99 dólares cada, podendo ser utilizados e copiados sem qualquer tipo de restrições. Quanto aos filmes são apenas para aluguer – podendo ser visionados apenas nas 24 horas seguintes à primeira reprodução do ficheiro ou nos 30 dias após efectuada a transação. As estreias estão disponíveis a 3,99 dólares cada ao passo que os títulos em catálogo custam 2,99 dólares.

Sem contar com o facto de que a loja é, por enquanto, apenas para residentes nos Estados Unidos, todos os conteúdos encontram-se protegidos – amarrados – ao sistema de DRM (Gestão de Direitos Digitais) do Windows Media da Microsoft, a tecnologia PlaysForSure, que para além de impor limites temporais, impede que os filmes alugados possam ser visualizados em mais do que um computador. Isso quer dizer que o material adquiridos apenas pode ser reproduzido no Windows Media Player 11. Logo à partida, portanto, os utilizadores de sistemas operativos alternativos como Linux e Mac OS X, ficam excluídos. Isto é o primeiro grande tiro no pé da iniciativa de Bram Cohen e Ashwin Navin, agora com o apoio da Metro-Goldwyn-Mayer e dos outros grandes estúdios de Hollywood representados pela infame MPAA. É que a comunidade P2P é composta em grande por utilizadores de software livre. E nenhum comerciante deseja hostilizar a sua clientela habitual. Talvez seja por isso que, no sentido de cativar uma audiência menos familiarizada com a tecnologia, a empresa tenha optado por uma plataforma exclusivamente centrada na Web – ao contrário do que fizeram os criadores do rival Azureus, ao decidirem integrar o cliente com um site indexador de conteúdos, o Zudeo (que, a julgar pelo que indica o Janko Roettgers, vai deixar de ter esse nome).
Aliás, os próprios fundadores da BitTorrent.com declararam já inúmeras vezes em público que a DRM é inútil para proteger os conteúdos digitais. Mesmo ontem, em declarações ao New York Times, Cohen reiterou não estar satisfeito com “as implicações a nível do interface de utilizador” da DRM, que esta era uma coisa infeliz e que o que realmente pretendiam era removê-la. Numa entrevista por email à Slyck, o criador do protocolo P2P enreda-se numa série de justificações pouco ou nada convincentes sobre o recurso à DRM, como se a MPAA lhe tivesse apontado uma pistola à cabeça em vez de um cheque com uns bons milhões de dólares para ele assinar.
E se pensam que o preço do aluguer dos filmes é um roubo, fiquem a saber que, de acordo com o que Ashwin Navin afirmou ao NYTimes, apesar de a BT.com ter assegurado o direito a comercializar cópias para download, a empresa optou por não o fazer uma vez que os montantes que as companhias de cinema pretendiam cobrar “seriam demasiado elevados para a maioria dos consumidores”.
A juntar a todos estes factores que contribuem para o fracasso antecipado do novo serviço comercial de partilha de ficheiros está outro factor que é também comum a outras tentativas semelhantes de “monetização”: é que o P2P, e o protocolo BitTorrent em particular, baseia-se numa arquitectura de rede desentralizada em que a distribuição do ficheiro fica a cargo dos utilizadores. Assim, os custos com a largura de banda ficam por conta destes, o que é óptimo para os fornecedores de conteúdos. Mas qual é o incentivo que um utilizador tem por pagar por algo que pode muito bem obter de borla? No caso da loja online da BT.com, embora a indexação e a semeação (seeding, isto é, o processo de distribuição do ficheiro) original seja da responsabilidade da empresa, são os utilizadores que ficam depois encarregues da distribuição.
É claro que Cohen e Navin pretendem tirar partido das vantagens do BitTorrent para oferecer filmes e séries televisivas com maior qualidade e mais rapidamente que concorrentes como a Apple, Amazon, Walmart e MovieLink. O problema é que a plataforma da BT.com está dependente do software-cliente da empresa, que há muito perdeu a sua posição cimeira para outros clientes de BitTorrent como o Azureus e o BitComet. Isto apesar de o serviço ser compatível com o uTorrent, uma aplicação para Windows bastante popular que passou para as mãos da BT.com em Dezembro passado.
Feitas as contas, este serviço parece condenado à nascença. Com efeito, como é que é possível competir com o que é grátis e que está ali apenas a um click de distância? Mesmo com a implementação de um sistema de filtragem, continua a ser possível encontrar montes de ficheiros torrent com conteúdos ilegais de trackers como o Pirate Bay, TorrentReactor e MiniNova nos resultados do motor de pesquisa do site quando se procura a partir dos resultados de toda a Web.
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