Depois da Rasarte, mais um projecto português que se pretende constituir como netlabel, as Edições Café Roubado que surge a partir do blog de Miguel Cardoso. Por enquanto ainda é só uma ideia, mas ele solicita a colaboração de músicos, bandas, designers e críticos de música:

Quero ajudar a música portuguesa. Quero que as pessoas tenham conhecimento do que cá em Portugal se toca e não se ouve. Quero apoiar as bandas, quero apoiar os artistas em geral.
Precisei portanto de me abstrair dum meio meramente destinado à divulgação e de ter um projecto original. Lembrei-me logo da criação de uma netlabel (…) Então lembrei-me da primeira fase das bandas e dos envios das maquetas para as grandes editoras. Quantas são as vezes em que passam despercebidas? Quantas as vezes em que se perdem? Quanto é o dinheiro, o tempo e o trabalho que se gastam no envio das maquetas para uma série de editoras só de uma vez?
Tem de se dar mais valor a uma maqueta? Não sei, mas numa altura em que tanta gente envereda pelo mundo da música há, no mínimo, que se facilitar o processo de escolha das editoras. Como estou de alguma forma inserido nesta área como observador, tenho dado conta que isso faz com que artistas que lutando pela arte querem trazer algo de novo e que sabem surpreender sejam passados à frente por outros cuja sonoridade é já comum e batida. Talvez isso se deva em boa parte à falta de um conjunto de elementos (como a paciência) para com o envio de maquetas que imagino ser massivo para as editoras
Portanto, uma resolução para o problema pode ser, sem dúvida, a criação de uma netlabel (que baptizei provisoriamente como «Edições Café Roubado» e que desejo muito sinceramente que esteja ao gosto de todos) que disponibilize as maquetas dos artistas da nova música portuguesa interessados, numa espécie de galeria virtual, à qual os responsáveis pelas editoras e outras entidades com ligação a esta área tivessem acesso e pudessem fazer muito simplesmente a sua escolha.
Parece, de facto, um projecto bem intencionado e louvável. Mas, desculpem-me a sinceridade – e aqui falo apenas enquanto mero “observador” sem conhecimento de causa -, nem só de boas intenções se desenvolve uma alternativa credível e sustentável à indústria musical em que os lançamentos possam ser apreciados pelo melómano sem que este discrimine o que está a ouvir pelo facto de ser grátis ou de borla. Para gerar uma boa impressão junto da comunidade de artistas e do público, uma iniciativa que se apresente publicamente como netlabel tem que apresentar pelo menos um ou dois trabalhos para que as pessoas possam criar uma imagem da editora. O público tem que acreditar que se trata de um projecto com uma linha editorial coerente e pautada por critérios de selecção mínimos. Se o único critério exigido do artista é ser de nacionalidade portuguesa, fica-se com a ideia que, quer seja o acordeonista do metro ou a varina fadista, tudo vale a pena ser publicado. Atenção, com isto não quero dizer que os acordeonistas e outros músicos de rua não se possam juntar para lançar eles próprios uma netlabel – aliás, esta não é uma ideia de desdenhar… -, mas apenas que para conquistar credibilidade junto de uma potencial audiência, um selo virtual tem de, antes de tudo, lançar algo de concreto. Aqui, como no software livre, também acredito que o lema “release early, release often” deve prevalecer.
Um outro ponto muitas vezes descurado mas que revela bem o grau de profissionalismo e de seriedade que os promotores de netlabels concedem aos seus projectos consiste na questão da usabilidade e facilidade de navegação dos sites, bem como na imagem gráfica dos lançamentos, como nota o Michael Gregoire no BlocSonic. Embora seja verdade que não se deve avaliar um livro pela sua capa, o facto é que a melhor forma de captar a atenção do utilizador comum é oferecer uma experiência estética apelativa:
If the growing netlabel ‘industry’ is to be taken seriously, netlabels and net artists need to take the time to develop sites which present their releases in the best possible way. The fact that netlabel music is generally offered for free download is both good and bad. People tend to enjoy getting something for free and that’s good, yet at the same time, they place less value on that free item and that’s bad. As such they treat that item as a throw-away. Music should never be considered a throw-away… so to counteract the reduced attached value, netlabels/artists should take the time to give value to the music by polishing the web presentation and by providing high-quality art for each release. The art can help to give the music a ‘collectable’ value. If the provided art is of a high enough quality and the music matches, listeners will want to ‘collect’ your music and not miss a release. This attached value can generate more listeners by generating word of mouth buzz. More listeners means more support… either via donations, concerts or sales of related goods.
A new industry has a chance to make it’s mark. Now’s the time to take your netlabel, music, or releases seriously. You can’t expect anyone else to take you seriously, if you don’t take the time to show that you take yourself seriously as well.

Para clarificar o que o Michael diz com um exemplo concreto: profissionalismo e credibilidade parecem-me ser as palavras apropriadas para descrever o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos meses pela Xynthetic, um selo online de Vancouver, Canadá, criado pelo produtor Josh Garrett AKA Xyn e pelo DJ Graeme Foote AKA Pyxis, que foi oficialmente lançada no início de Fevereiro. Eu fiquei a saber da Xynthetic através de uma mensagem que os dois enviaram para a lista de discussão sobre Netaudio no Yahoo! no final de Dezembro a anunciar o projecto e uma compilação que iria incluir uma série de artistas na área do IDM, Techno, Electro e Drum’n'Bass. A compilação, apropriadamente designada Statement of Purpose, é uma portentosa declaração de intenções em formato sonoro, contendo 26 faixas disponíveis para download (infelizmente, apenas num ficheiro único ZIP de 279 Mbytes). Para “abrir o apetite” do público que se insere no nicho da música electrónica, ainda durante a fase pré-lançamento disponibilizaram o EP L10 assinado pelo próprio Xyn, publicaram duas mixes e criaram uma página no MySpace.

É claro que algumas coisas podiam ser melhoradas. Os dois discos foram publicados segundo uma licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5, o que impede a utilização das obras para fins não comerciais e a criação de obras derivadas a partir delas. Também não existe, por enquanto, a possibilidade de fazer streaming das músicas a partir do site. Mas no cômputo geral, a experiência estética proporcionada é muito agradável e eficiente. Em cada lançamento, ao lado do banner que nos convida a fazer o download existe também um link para efectuar uma doação via PayPal, sendo que o dinheiro é dividido a meias entre a editora e o artista. A partir da barra lateral da esquerda, podemos obter informação sobre os lançamentos previstos para o mês de Março, com as respectivas capas. E os assinantes da newsletter mensal vão ter direito a receber uma semana antes da divulgação pública os trabalhos com data marcada de saída para durante o mês de Março. Nesta página pode-se ficar a saber de alguns nomes de artistas com lançamentos agendados pela Xynthetic até Julho. A juntar a estes pequenos pormenores que marcam a diferença, existe ainda uma loja online onde se pode adquirir T-Shirts ostentando o elegante logotipo da netlabel, bem como outras camisolas alusivas aos artistas do seu catálogo. Futuramente, será também possível adquirir ali discos em vinil e DVDs.
Sinceramente, mesmo que a música publicada fosse de qualidade mediana, seria difícil de acreditar que o visitante incauto não ficasse com uma memória deste selo virtual marcada na sua mente. E justamente pelo facto de a música – tal como todo o conteúdo em geral – ser na Internet um bem mais do que abundante, a atenção necessária para valorizar devidamente esse conteúdo é um bem bastante escasso no mundo online, devendo por isso ser cativada ao máximo.
Não existem artigos relacionados.



{ 1 trackback }
Comments on this entry are closed.