O Drama, as mixtapes e a RIAA

by Miguel Caetano on 18 de Janeiro de 2007

“A ascenção e declínio da criatividade no Hip-Hop tem sido atríbuida em parte à aplicação limitada da excepção para a utilização transformativa” refere o relatório da Comissão Gowers para a revisão da propriedade intelectual no Reino Unido de que eu já falei aqui anteriormente a propósito da excepção em vigor nos Estados Unidos durante os anos 70 e 80 que permitiu que aquele género musical se tivesse desenvolvido vertiginosamente ao longo desse período. Os produtores e DJs tinham liberdade para samplar faixas antigas. A profusão das mixtapes foi, neste aspecto, um elemento fundamental para o crescimento da cultura do Hip-Hop. Estas cassetes contendo compilações de misturas inéditas, sneak previews de CDs ou rimas em jeito freestyle organizadas por DJs animavam as ruas e as festas de clubs e funcionavam como veículo de promoção para nomes como Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa, antes mesmos de as editoras discográficas terem despertado a sua atenção para estes artistas. Mas a partir dos anos 90 os artistas começaram a ter que obter a autorização do detentor dos direitos sobre o registo sonoro e respectiva editora e a negociar o pagamento de uma taxa antes de poderem utilizar um sample. Paralelamente, o negócio marginal das mixtapes começou também a ser perseguido pela indústria da música.

No entanto, ao longo de todo este tempo os novos artistas do mercado continuaram a recorrer a elas como forma de chegar ao maior número possível de ouvintes e assim conseguirem cativar o interesse dos executivos das majors: “Eu inundei o mercado das ruas porque as mixtapes são a porta de entrada para o Hip-Hop” – quem o afirma é 50 Cent, rapper com mais de 20 milhões de álbuns vendidos segundo a Wikipedia. Para os fãs, as mixtapes hoje disponibilizadas em formato CD constituem a forma mais imediata de ficarem a par dos singles mais recentes e dos artistas em voga no momento. Para as quatro grandes, são uma espécie de laboratório de ensaios que ajudam a gerar o buzz necessário para que os seus discos legais vendam milhões. Isso talvez explique o facto de os executivos da indústria cooperarem desde há muito com os DJs de mixtapes, disponibilizando-lhes os discos que eles utilizam, mesmo se a legalidade destas compilações não seja lá muito clara, como refere Tom Breihan no blog da Village Voice.

Aparentemente, a RIAA ainda não percebeu ou não quer perceber isso, com receio de que as quatro labels da indústria discográfica sejam definitivamente ultrapassadas neste lucrativo sector do mercado pela economia paralela das ruas onde os DJs são reis e senhores. Isto porque como podem ver no vídeo de cima, a RIAA decidiu esta semana enviar uma equipa das forças especiais SWAT para fazer uma rusga aos estúdios dos DJ Drama e DJ Cannon na cidade de Atlanta, na Geórgia. De acordo com o New York Times, o rescaldo saldou-se pela apreensão de 81 mil CDs, quatro veículos, material de gravação e “outros bens que comprovam um padrão de actividade ilícita”, conforme referiu um polícia. Para além dos dois DJs, presos por violação de uma lei daquele estado norte-americano que serve também para incriminar mafiosos e barões da droga – sendo que neste caso específico se tratou formalmente de uma acusação de “contrafacção” -, foram também detidas 17 pessoas. Drama e Cannon saíram já entretanto da cadeia mediante o pagamento de uma fiança de 100 mil dólares.

Embora a reportagem da FOX esteja montada de forma a transmitir a ideia de que os CDs comercializados pelos DJs através da Internet eram piratas, no sentido de cópias exactas de trabalhos originais dos artistas, isso não é claramente o caso, uma vez que as imagens mostram que o que foi apreendido foram CDs de mixtapes. Na medida em que consiste numa mistura de manipulações e recombinações dos trabalhos de outros artistas, a mixtape é considerada por muitos apreciadores deste estilo musical como a forma de arte suprema do Hip-Hop. DJ Drama, de seu verdadeiro nome Tyree Simmons, era actualmente um dos maiores mestres nesse ofício, colaborando com reputados rappers como Lil Wayne e Busta Rhymes.

Era tão bom naquilo que fazia que, juntamente com o seu colega DJ Cannon (Donald “Don” Cannon) através do colectivo Aphilliate Music Groups – que inclui o DJ Sense – tinha assinado em Setembro passado um contrato de distribuição com a Asylum Records, uma subsidiária da major Warner. Mas, como se viu, isso não lhe serviu de muito para escapar às garras da RIAA…

Apesar de a cultura das mixtapes ser um elemento fundamental no circuito comercial do Hip-Hop, as rusgas contra DJs e produtores têm vindo a aumentar: segundo o New York Times, em 2005 cinco empregados da Mondo Kim’s, no East Village de Nova Iorque, foram presos depois de a polícia ter descoberto que a loja de discos estava a vender mixtapes ilegais; por seu lado, a Billboard também refere que a polícia de Atlanta já tinha efectuado outra acção contra a comercialização destas compilações, tendo nessa ocasião apreendido “CDs pirateados no valor de 14 milhões de dólares, cinco veículos, cocaína e marijuana” e detido um grupo de imigrantes africanos. O que não explica é se se tratava realmente de material pirata ou de mixtapes. Pelo que se pode entender do vídeo, a Fox parece ter também “engolido” essa história.

Esta combate indiferenciado contra todas as obras em suporte físico que não seguem as regras estabelecidas pelo oligopólio das quatro majors resulta de uma estratégia concertada da RIAA junto de 12 cidades que identificou como prioritárias num relatório do passado mês de Maio. Estas cidades – Atlanta, Austin, Chicago, Dallas, Houston, Los Angeles, Miami, Nova Iorque, Filadélfia, São Diego e São Francisco – constituem para aquela entidade privada autênticos “hot spots” para o furto de música. Eu só li o comunicado por alto, mas pelo que deu para perceber é mais um exemplo de doublespeak levado ao extremo. Confundir mixtapes com contrafacção em larga escala é uma atitude completamente incoerente por parte da indústria, na medida em que é graças a elas que as majors continuam a angariar potenciais clientes e artistas para o extremamente lucrativo mercado do Hip-Hop. No site da MTV podem ver uma extensa reportagem que demonstra a importância que estas compilações tiveram para o desenvolvimento do género musical nas últimas três décadas. Aqui em baixo, deixo o trailler do documentário “Mixtapes, inc.” produzido e dirigido por Walter Bell. O filme, que conta com depoimentos de Kayne West e outros rappers famosos, relata os lados cultural e económico deste artefacto musical oriundo das ruas dos bairros negros dos Estados Unidos.

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