Muita agitação anda pelos blogs e sites de informação do mundo todo sobre as novidades e rumores que têm surgido a partir de Cannes, cidade francesa onde decorre a MIDEM (Mercado Internacional do Disco e da Edição Musical), uma das maiores feiras mundiais da indústria da música.
Um desses assuntos que tem marcado a agenda é a estagnação do crescimento do mercado da música digital, que representa actualmente dois mil milhões de dólares, isto é, dez por cento de todas as vendas. Apesar de as vendas online de faixas por unidade terem aumentado 80 por cento em relação ao ano anterior, o ritmo deste aumento foi mais lento do que em 2005, não tendo por isso compensado a descida nas vendas de discos em CD, segundo um estudo da IFPI, a versão da RIAA para o resto do mundo, divulgado na semana passada.
De acordo com o que John Kennedy, director-executivo da IFPI – que ainda recentemente ameaçou processar os fornecedores de acesso à Internet que permitem que os seus clientes utilizem redes P2P para partilhar ficheiros com direitos de autor e exigiu que os ISPs retirassem o acesso aos utilizadores que insistissem nessa actividade, afirmou ao International Herald Tribune no total as vendas de discos e faixas em formato digital devem ter descido entre três a quatro por cento.
Talvez por isso não sejam de estranhar os rumores de que está para breve o anúncio oficial de uma das quatro majors de que irá começar a vender ficheiros de música digital no formato MP3, sem quaisquer restrições impostas por sistemas de DRM – chegou-se mesmo a sugerir que a major em questão seria a EMI, uma vez que esta empresa deixou recentemente de inserir mecanismos de protecção anti-cópia nos seus CDs. Pouco tempo depois, num acordo semelhante ao assinado com o serviço SpiralFrog, a EMI anunciou também que iria oferecer música por streaming mediante publicidade através do Baidu.com, um dos maiores sites e motores de pesquisa na China onde 90 por cento da música é ilegal.
Será que as majors compreenderam finalmente que os apreciadores de música não querem ser tratados como criminosos, pretendem apenas ouvir a sua música nos seus leitores de MP3, computadores e telemóveis e que irão sempre arranjar estratagemas para dar a volta a todas as tecnologias que impôem artificialmente a escassez?
Pelo menos algumas lojas de música online parecem já ter compreendido essa mensagem. É o caso da VirginMega e a FNAC, duas das maiores cadeias de lojas de música na França, que aproveitaram o MIDEM para anunciar que iriam começar a vender música sem DRM: 200 mil e 150 mil faixas, respectivamente, publicadas por editoras independentes. Também a Amazon está a ponderar iniciar um serviço de downloads de música.
A música quer ser livre, diz Attali
Mas seja qual for a próxima major a dar o passo em direcção à eliminação total da DRM a verdade é que, e aqui é onde eu queria chegar, “não se pode pedir às pessoas para pagar pela música quando elas já acedem gratuitamente a ela”, Jacques Attali dixit. Este senhor francês que em tempos foi conselheiro de François Mitterrand já exprimia ideias tão simples e óbvias – aquelas que, por isso mesmo, são as mais geniais – como estas há exactamente 30 anos atrás.No seu presciente e brilhante livro “Bruits: essai sur l’economie politique de la musique” editado em 1977, no mesmo ano em que a violência sonora dos Sex Pistols achocalhava a passividade dos britânicos, Attali dizia que a própria natureza da música consistia em procurar a gratuidade pois esta seria a única forma de o artista evitar a dissolução da sua música no sistema alienante da indústria musical centrado na repetição. O destino da música seria assim concretizado através da composição, em que o artista produziria não por constrangimentos exteriores a si próprios mas pelo prazer que essa actividade lhe oferece. A música seria um fim em si próprio. Como resultado do surgimento de novas tecnologias e instrumentos, de uma economia política da escassez passaríamos a uma economia política da abundância. Uma consequência disso é que deixaria de haver uma barreira artificial entre produtor e consumidor. Em vez de nos limitarmos a ouvir música, passaríamos todos a tocá-la. A composição tenderia a tornar-se uma experiência de criação colectiva.

Embora “Bruits” seja no século XXI mais actual do que quando foi originalmente publicado, Attali decidiu actualizar as suas teses em 2001 no ensaio “Potlatch Digital” onde tem em linha de conta as inovações tecnológicas recentes como o Napster e outras redes P2P que permitem a implementação plena de uma economia da dádiva, onde as pessoas partilham a música apenas pelo prazer de oferecer. Nesta conferência que agora deu no MIDEM, o teórico francês retomou algumas das teses dos seus trabalhos anteriores. “Um conteúdo gratuito não quer dizer que não exista modelo económico: as receitas vêm dos concertos, da publicidade, dos dispositivos electrónicos”. Para verificar isso não é preciso ir muito longe: basta olhar para o exemplo das netlabels. Segundo refere o site francês News.fr, a gratuitidade na música é um dos temas que Attali aborda no seu novo livro “Une brève histoire de l’avenir”. Neste extracto de um programa de rádio transmitido pela estação France Culture em Agosto de 2005 o teórico francês avalia os aspectos negativos e positivos da gratuidade da difusão da música e analisa o sentido dessa evolução histórica (via Philippe Axel).
Quem também esteve nessa conferência foi Chris Anderson, chefe de redacção da Wired e autor do livro “The Long Tail”. Defendendo a sua teoria da cauda longa, Anderson afirmou mais uma vez que a imaterialização da música irá fazer com que o conceito de tops deixe de fazer sentido. Com o fim das restrições materiais associadas ao suporte físico e as possibilidades de cópia infinitas que o digital oferece, as músicas de artistas já esquecidos ou mais obscuros passarão a ser mais rentáveis que os êxitos do momento. “Tudo aquilo que está ligado ao formato digital será gratuito. Serão as outras experiências musicais, isto é, aquelas que não são duplicáveis até ao infinito, que vão ser pagas”, refere. É formidável como quando comparado com Attali, qualquer outro futurólogo da indústria da música parece um papagaio do francês… E o que é que o próprio Attali achou deste encontro com Anderson? Podem ler no blog dele (via Alban Martin):
Au Midem, où j’étais venu débattre avec Chris Anderson, patron de Wired, (www.wired.com) le magasine culte des nouvelles technologies américaines, nous tombons d’accord, devant des patrons de majors peu convaincus, pour prédire la généralisation de la gratuité dans la musique, son financement par la publicité, (selon le vieux modèle de la radio), par les producteurs d’objets nomades distribuant la musique et par les concerts. Nous trouvons comme un malin plaisir à expliquer pourquoi les majors n’ont pas vu venir ce qui était l’évidence et pourquoi ils s’obstinent à vouloir vendre ce qui est désormais gratuit. Ayant exposé ma vision du retour au spectacle vivant, (en attendant la vague à venir, qui verra se développer le marché des instruments de musique) , j’explique pourquoi à mon sens, on verra même se créer des firmes qui vendront du temps à passer avec les artistes , non seulement des places de concerts, mais aussi le droit d’assister à une répétition, d’entendre une chanson chantée pour soi, de déjeuner ou de diner avec une personne connue.
Bem, chega de Jacques Attali por este post. Mas fiquem os leitores descansados que mais cedo ou mais tarde o nome deste senhor há-de voltar a aparecer neste blog. “Bruits” faz hoje mais sentido do que nunca e é um guia para compreender tudo o que se tem passado ao longo das últimas três décadas nesta arte abstracta e colectiva do arranjo harmonioso e melódico de sons a que damos o nome de música. Ontem como hoje, a música continua a ser profética na medida em que anuncia um novo projecto político e novas formas de sociabilidade para além da dependência da acumulação material. Uma revolução, se quiserem. Mas uma revolução verdadeiramente colectiva, baseada na procura incessante pelo prazer individual e, simultaneamente, pela integração numa comunidade, por mais pequena que ela seja.
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