Já aqui escrevi antes sobre a Eletrocooperativa. Vale a pena referir este projecto outra vez. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos com origem em São Salvador da Baía, Brasil, que funciona ao mesmo tempo como iniciativa de inclusão social através da educação musical, netlabel e incubadora de empreendimentos cooperativos. Isto vem a propósito de um relato memorável que eu encontrei no OpenBusiness assinado por um dos responsáveis do projecto pelo pesquisador André Stangl*. Aí se pode ver como o Brasil é mesmo a “terra do possibilismo” onde apesar de todos os obstáculos a enfrentar, se pode encontrar inesperadamente um “mutirão” numa esquina qualquer de uma favela ou bairro da periferia.
São projectos assim, assentes na generosidade intelectual, que fazem falta em Portugal e um pouco por todo o mundo para dar mais esperança e mais alegria às pessoas e para fomentar a criatividade. Toda a gente é um criador em potência, basta apenas estimular essa inventividade, cultivá-la e deixá-la florescer sem restrições através da partilha da cultura e do conhecimento. E que melhor arte senão a música, a mais universal de todas e em simultâneo a mais abstracta para dar o primeiro passo nesse sentido. E se no final conseguirmos assegurar a auto-sustentabilidade económica desses projectos num mercado agressivo e ultra-competitivo tanto melhor ainda… Voltando ao artigo, porque vale mesmo a pena lê-lo até ao fim, decidi excepcionalmente fazer cópia integral:
Notas sobre o eletrocooperativismo
Como falar de uma experiência coletiva de transformação humana, sem incidir em uma teorização vazia? Como fazer jus ao brilho nos olhos de quem dela participa? Será que valerá a pena se isso por si só não transformar, a mim que tento descrever e a você aí que me lê? Aviso desde já que ao ler esse artigo, se você for como eu, ao final da leitura será outra pessoa. Apesar de soar tão desgastada nos slogans de televisão, nas campanhas políticas e nas letras de música, ainda podemos fazer alguma coisa para mudar o mundo.
A Eletrocooperativa é a realização de um sonho de transformação social através da música e da tecnologia. Alguma coisa diferente está acontecendo na atmosfera mental (noosfera) do mundo e a Eletrocooperativa faz parte disso. Uma forma diferente de entender o valor das coisas, privilegiando muito mais as relações e os links sociais, do que a acumulação e o isolamento social. Empreendendo a aproximação entre vários setores da sociedade, envolvendo artistas, empresários, profissionais liberais e órgãos públicos, através de um laborioso trabalho de articulação. Experiências como a Eletrocooperativa buscam respostas para as perguntas que o nosso medo ou egoísmo não nos deixa ouvir. Sim, existem saídas para o caos, para a violência, para a desigualdade, para o individualismo e para a falta de sentido de nossas vidas. Alguém já ouviu falar em solidariedade? Pois é, ela existe e assume múltiplas formas, uma delas é o cooperativismo. Co-operar e co-laborar são palavras irmãs, o sentido é de estar juntos. É um fazer coletivo que desenvolve nossa consciência social, nos faz ver o mundo de uma outra forma e isso por si só já é uma mudança importante. Uma obviedade que nossa razão até aceita, mas que dificilmente consegue nos mover na direção de uma nova prática social. Talvez porque a razão não baste, saber o que é certo não é suficiente para começar a fazê-lo. Pode parecer paradoxal, mas só conseguimos compreender de fato a força transformadora do trabalho coletivo, quando trabalhamos coletivamente. A experiência de co-operar contamina o corpo e o que mais você tiver aí por dentro. Nos envolve de uma tal forma que fica difícil não ter esperança num mundo melhor depois disso.
Epifania
A iniciativa de criar um centro de colaboração estético-social foi de um grupo de jovens da classe média, em sua maioria bem nascidos e apaixonados por música, mas preocupados com o rumo da convivência humana nas grandes cidades. No caso de Salvador, uma importante matriz cultural para o que chamamos de Música Popular Brasileira, é na luta contra a concentração de renda desproporcional, a falta de perspectiva de muitos jovens talentosos ou mesmo contra a ganância de muitos empresários da indústria local de música, que se insurge a proposta da cooperativa de música e tecnologia. Os baianos Reinaldo Pamponet e Fernando Ferrel e os paulistas Marcio Zorzella e Dudão Melo deram os primeiros passos, mas nada conseguiriam se já não ouvissem as demandas dos jovens excluídos.Segundo Reinaldo, que atualmente está à frente da instituição, o projeto era criar uma ong com o objetivo de promoção social através do acesso aos meios de produção musical, auxiliando de forma colaborativa no desenvolvimento da autonomia financeira de jovens de baixa renda. Situada no centro histórico de Salvador, Pelourinho, nº 34 da Rua João de Deus, pretende em breve expandir o alcance de suas realizações com a abertura de sedes em Arcoverde (PE) e São Paulo (SP). A Eletrocooperativa é uma ong (organização não-governamental da sociedade civil, sem fins lucrativos) que trabalha preferencialmente com jovens de 15 a 25 anos que tenham interesse na área musical e artística. Foi inaugurada em 2003 com uma grande festa, onde o dj Patife tocou junto com percussionistas dos blocos afros (essa epifania foi registrada e está disponível no podcast Soteropaulistano). A estratégia inicial foi conseguir jovens com aptidão a partir do contato com os blocos, depois foram realizadas oficinas de capacitação. Segundo o site do projeto, desde o início das atividades 579 jovens foram beneficiados nas diversas atividades existentes: Inclusão Digital, Produção Musical, Técnicas de estúdio, Teoria Musical, Oficina de Djs, Formação Cidadã, Apoio Psicológico, Empreendedorismo e Cooperativismo, Desenvolvimento do Plano de vida individual, Modelo de Geração de Renda (em fase inicial). São jovens que estão aprendendo a fazer business cultural, de maneira mais horizontal. Também estão aprendendo a produzir bens culturais que privilegiam a circulação e a troca, já que não restringem as possibilidades de cópia e compartilhamento de sua produção. Estes jovens artistas optam por não adotar as clássicas regulamentações de copyright, mas não abdicam de assumir a responsabilidade por suas criações. Já foram produzidos 8 CDs, 10 CDs estão em finalização e já são mais de 10 mil downloads de música no portal. Também é possível disponibilizar músicas no portal da iniciativa, mesmo sem ser aluno, como fizeram os artistas Lucas Santtana, Chico Correa e as bandas Diamba, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, tara_code e Lampirônicos. Atualmente existem 35 artistas cadastrados no portal.
Pesca de rede
A originalidade da Eletrocooperativa está em sua proposta de fomentação cultural, estimulando uma perspectiva colaboracionista de produção e difusão de bens culturais. E aliando a isso a oferta de produtos específicos como jingles, ringtones, células rítmicas para loops e um portal na internet que oferece espaço para que se disponibilize músicas licenciadas em Creative Commons. Assim, a principal forma de distribuição da produção musical da instituição é através do portal. Aqui está a sua ponte com o modelo de negócios abertos, chamado Open Business. As músicas produzidas na Eletrocooperativa também podem ser adquiridas comprando-se os cds que são vendidos pelos próprios meninos ao preço de R$ 5 nas ruas do Pelourinho. No entanto, a participação dessas vendas na sustentação do projeto ainda é pequena. Até o momento (nov/2006), foram vendidos um pouco mais de 4 mil cópias, o que significa algo em torno de R$ 20 mil. A disponibilização das músicas no portal amplia a visibilidade do que é produzido na Eletrocooperativa, a estratégia é chamar a atenção para a forma de produção e distribuição. Nesse contexto pode se entender a venda de cds físicos como uma forma de adesão ao projeto, ou seja o comprador antes de mais nada está contribuindo para a manutenção da iniciativa. Os demais produtos, como rigtones e jingles, serão negociados enquanto prestação de serviços às empresas interessadas.A mídia local ainda não deu a devida atenção, mas o público de artistas como o grupo de rap Império Negro, formado por alunos da cooperativa, já demonstra que essa equação pode mudar. Segundo Marcos Vinícius dos Santos, o MC Xarope já são vários os convites para show, alguns inclusive são pagos. Não preciso citar aqui o exemplo de bandas como a Cansei de Ser Sexy, no portal Trama Virtual, ou a banda Arctic Monkeys, no MySpace (vale ler a matéria do Alexandre Matias sobre isso) . Guardada as devidas proporções, não são poucos os casos de bandas e artistas que conseguem furar a parede do sucesso financeiro usando a Internet. Essa é uma das apostas da estratégia de auto-sustentação da Eletrocooperativa, além de ser uma possibilidade muito interessante para os próprios artistas.
Um outro caminho, que não se opõe, nem exclui o uso da Internet, tem sido a comercialização de produtos como ringtones e jingles que estão começando a ser produzidos na Usina de Produção: Juventude e Trabalho, o novo projeto da Eletrocooperativa. Nela estão 21 jovens com carteira assinada, ganhando um salário mínimo, num projeto que prevê três anos de trabalho integral, com a previsão da geração de uma poupança coletiva, com mais de R$ 100 mil. A idéia é que os jovens aprendam a trabalhar como músicos e como produtores. A cada seis meses serão integrados ao projeto mais vinte jovens. O projeto, que conta com o apoio da Fundação Avina e do Instituto ibi, parte do princípio que entende que é melhor “ensinar a pescar, do que dar o peixe
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Olá Miguel,
Sou uma portuguesa que durante este último ano percorri alguns países do mundo fazendo trabalho voluntário. Tive o privilégio de ter trabalhado na Eletrocooperativa durante algum tempo e não pude deixar de me sentir orgulhosa ao ler este artigo, num site Português, sobre a Eletro. São uma equipa fantástica e fazem um trabalho incrível na cidade de Salvador.
Parabéns pelo artigo e muitos beijos para toda a equipa da Eletro!
Ana Cordeiro Rodrigues
Meu caro Miguel,
obrigado pelo remix/relink/recontexto !
o título original do artigo faz referência a uma música de Caetano Veloso: “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Não sei se a música é conhecida por aí, do outro lado do Atlântico, mas veja se não são proféticos os versos: “Quem já botou pra rachar / Aprendeu, que é do outro lado / Do lado de lá do lado / Que é lá do lado de lá…” rsrsrs
postei lá no Open Business com um outro título para facilitar uma futura tradução.
Parabéns pelo blog e bom ano novo!
OLA EU VIR UMA REPORTAGEM NA REDE GLOBO MAS PRECISAMENTE NO CAUDEIRÃO DO RUCK, FOI SOBRE VOCÊS? EU PERCEBIR QUE VOCÊS ENCINAM COMO FAZER GRAVAÇÕES E MIXAGEM EU GOSTO MUITO DE MUSICA SOU DEFICIENTE FISICO E TENHO O SONHA DE TER UM ESTUDIO COMO FONCIONA ESTES CURSSOS GOSTARIA DE TER IMFORMAÇÕES. OBRIGADA E AGUARDO