Darknets contra Lightnets – Parte I

by Miguel Caetano on 3 de Dezembro de 2006

De acordo com a Wikipedia, “uma darknet é uma rede privada que é invisível para o mundo exterior. Pode ser utilizada para a partilha de ficheiros, ou para a distribuição de mensagens políticas em países sem liberdade política”. O termo ganhou popularidade com o lançamento em 2005 do livro de J.D. Lasica, autor do livro “Darknet: Hollywood’s War Against the Digital Generation” (A Guerra de Hollywood Contra a Geração Digital).

O jornalista e blogger acrescenta uma definição mais detalhada, referindo-se a “redes de pessoas que recorrem a espaços de acesso fechado – abrigos seguros nos mundos virtual e real onde existe pouco ou nenhum receio de detecção – para partilhar com outros material digital protegido pelo copyright ou para escapar às restrições impostas sob os media digitais pelas empresas de entretenimento”.

Embora já conhecesse o conceito, começei a pensar em escrever um post a respeito deste assunto quando fiquei a saber através do Ecologia Digital do José Murilo que o Partido Pirata sueco do qual eu já falei aqui anunciou em Agosto passado o lançamento da primeira darknet comercial* chamada Relakks que, por cinco euros mensais, oferece um endereço IP anónimo em cima do nosso serviço de acesso à Internet através de uma ligação a uma Rede Virtual Privada (VPN) fortemente encriptada. Assim, pode-se utilizar um endereço de IP sueco a partir de qualquer lugar do mundo para transmitir e receber ficheiros de informação sem receio de ser monitorizado ou registado.

Para além das suas aplicações concretas, o desenvolvimento deste meme ao longo dos últimos anos por sectores da blogosfera e das tecnologias de informação também me parece fascinante. De certo modo, esta história pode ser vista como um indício da evolução social, tecnológica e cultural das redes P2P. Como o próprio J.D. Lasica explica no post que eu linkei em cima, o termo foi introduzido num relatório intitulado “The Darknet and the Future of Content Distribution” apresentado por quatro investigadores da Microsoft em Novembro de 2002 numa conferência.

Os investigadores abrangiam na definição de darknets – “um conjunto de redes e tecnologias empregues para partilhar conteúdos digitais” – redes P2P como o Napster, o Gnutella e o KaZaa. Apesar de já mencionar o Freenet, a rede descentralizada e anónima concebida pelo irlandês Ian Clarke em 2000 – e que ainda hoje se encontra em desenvolvimento, – para que os cidadãos que vivem em países opressivos possam escapar à censura e exercer a sua liberdade de expressão -, o artigo não distinguia entre redes de acesso universal onde os “peers” (pares) comunicam com todos os outros utilizadores de redes “friend-to-friend” (F2F – entre amigos) em que as pessoas estabelecem ligações directas com os seus amigos de confiança para trocarem ficheiros.

De acordo com os investigadores, a única forma eficaz de as indústrias culturais combaterem a vasta economia da dádiva baseada na partilha ilegal de músicas, filmes, programas de televisão, jogos, software e pornografia que crescia sem parar através das darknets assentava na oferta de conteúdos de qualidade e a preços acessíveis, uma vez que a adopção de medidas de protecção contra cópias como os sistemas de DRM apenas iria gerar uma reacção negativa por parte dos utilizadores, que rapidamente encontrariam uma forma de desbloquear os conteúdos e disponibilizá-los em qualquer rede P2P que ainda não tivesse sido fechada – aqui eu pergunto-me porque é que a Microsoft não deu ouvidos aos conselhos dos seus funcionários antes de colocar tecnologia de DRM no Zune…

Daí em diante e à medida que os serviços de P2P iam encerrando as portas, fechando o acesso ou tornando-se antros de spammers e que novas redes descentralizadas e mais eficientes como a BitTorrent iam surgindo, o termo começou a ser empregue por media comerciais como a The Economist, a Rolling Stone e a Wired, tendo adquirindo com o tempo um sentido diferente do original. O New York Times, por exemplo, descreveu as darknets como sendo ciberclubes ou comunidades fechadas de acesso privado e apenas por convite, através de um código especial. Nesta altura, por volta de 2003-2004, começaram a surgir os primeiros trackers privados destinados à partilha de ficheiros MP3, contendo na sua maioria lançamentos pirata originais convertidos (rippados) para MP3 com uma compressão de 320 Kbps e identificados com tags ID3 correctas. Estes sites superavam em qualidade mesmo a oferta de redes vocacionadas para a partilha de música como o Soulseek, onde é fácil obter colecções inteiras de faixas antigas difíceis de encontrar noutros lados ou pertecendo a géneros musicais obscuros (experimental e electrónica, sobretudo IDM) a partir das pastas de música do disco rígido dos outros utilizadores.

Outro exemplo de darknet a destacar é o sistema WASTE desenvolvido por Justin Frankel da Nullsoft, responsável pelo Winamp, Gnutella e Shoutcast. Em 2003, após a Nullsoft ter lançado a primeira versão do cliente do WASTE, a sua empresa-mãe AOL decidiu encerrar o site onde o projecto estava alojado, alegando que violava a sua propriedade intelectual. Isso não impediu que tenham surgido rapidamente várias aplicações cliente e servidor do programa. A P2Pnet.net conta um pouco da história atribulada do WASTE aqui. Este software e protocolo integra instant messaging e salas de chat, permitindo a partilha anónima, segura e encriptada de ficheiros através de pequenas redes descentralizadas de 10 a 50 utilizadores.

Mais recentemente foi lançado o AllPeers, um software baseado no protocolo BitTorrent que consiste numa extensão para o Firefox. Basicamente, o AllPeers funciona como uma barra de ferramentas integrada no browser, simplificando e ampliando o processo de troca de ficheiros entre amigos através de messengers ou em grupos de discussão da Usenet e canais de chat do IRC. Seria caso para dizermos que estamos perante a darknet ideal, mas se virmos melhor chegamos à conclusão que não é bem assim, como se pode ler na Slyck. Apesar de as comunicações serem encriptadas com recurso ao protocolo SSL, a extensão é proprietária – embora prometa vir futuramente a disponibilizar o código-fonte -, coloca riscos à segurança dos utilizadores, não permite a partilha de material que possa violar os direitos de autor e o registo no serviço depende de uma arquitectura centralizada.

Tal como o David Holmes, também concordo que existem vantagens óbvias em verdadeiras darknets de acesso pago – ao contrário do que a Relakks promete – e não só para os que querem arranjar músicas e filmes de borla. Apesar de poderem também funcionar como portos seguros de spammers, cibercriminosos e terroristas que querem escapar aos braços da Lei, estes serviços podem servir como espaços onde bandas, DJs ou simples amadores podem disponibilizar sem problemas mashups e remixes baseados em samples de obras protegidas pelos direitos de autor para os quais não pediram autorização do criador original. Por outro lado, alguns artistas e netlabels podem querer distribuir directamente as suas faixas ao público através de canais privados sem terem que recorrer ao MySpace e outras redes sociais sobrepopuladas, com termos de serviço desonestos e onde os conteúdos colocados pelos utilizadores começam a ser cada vez mais controlados.

Para além dos benefícios óbvios em termos de confiança, segurança, privacidade e liberdade de informação, uma rede privada de acesso pago poderia também funcionar como uma fonte de rendimentos extra para uma ou várias netlabels em conjunto. Em troca, os utilizadores teriam acesso a ficheiros MP3 de 320 Kbps ou noutros formatos de compressão Lossless – sem perda de qualidade dos dados originais – como o FLAC e o Monkey’s Audio em vez dos MP3s de 192 Kbps ou VBR que continuariam a poder ser livremente descarregados.

* Actualização (4 de Dezembro): Afinal o comunicado que anunciava a Relakks como sendo a primeira darknet comercial parece ser só propaganda política/comercial. Segundo o que pude ler na Slyck e no fórum do site do Partido Pirata dos Estados Unidos e tal como se pode verificar no tutorial que explica como efectuar a ligação ao serviço através do Windows, a Relakks não passa de uma VPN semelhante a muitas outras que são oferecidas no mercado, embora a preços mais acessíveis e com a vantagem de o endereço IP pertencer a um país cujas autoridades são tradicionalmente mais tolerantes para com os downloads “ilegais”. Para além de não oferecer anonimato completo, a empresa não pertence ao Partido Pirata Sueco, existindo apenas uma cooperação com a Labs2.com, uma companhia de Jonas Birgersson.

Segunda parte

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1 marcelo 6 de Junho de 2008 às 15:02

muito bom

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