O “pirata” e o “fato-e-gravata”

by Miguel Caetano on 16 de Novembro de 2006

Por intermédio do Alban Martin, fiquei a saber que John Battelle, autor do livro “The Search” sobre o Google, conseguiu a proeza de juntar David Munns, vice-presidente da EMI Music, e Erik Kleptone da banda de “reciclagem pop”/remixagem The Kleptones, para uma conversa serena e pacífica na semana passada durante a conferência Web 2.0con. O streaming pode ser feito a partir daqui (formato proprietário Windows Media).

Os Kleptones, para quem não sabe, editaram há tempos um álbum chamado “A Night at the Hip-Hopera” que consiste basicamente num mashup que combina o famoso álbum dos Queen com rap e outros sons menos ortodoxos, juntando uma grande camada de termos vernaculares por cima.

Se em 2003 a resposta da EMI Music ao enorme e súbito êxito do “Gray Album”, o mashup cozinhado pelo DJ Danger Mouse que combinava sons do “White Album” dos Beatles com as rimas e batidas do “Black Album” de Jay-Z foi ordenar a apreensão de todas as três mil cópias, ameaçando o remixer de editar uma cópia pirata, no caso dos Kleptones a reacção foi mais cautelosa, o que é um indicador das mudanças que começam a surgir dentro dos muros fechados das majors. A julgar pelas palavras de Munns, a EMI parece agora estar a tentar encontrar formas de monetizar a criatividade resultante da cultura da remistura.

Mas o problema é que apesar de majors como a de Munns não colocarem de parte a possibilidade de licenciar reapropriações criativas dos seus catálogos, elas continuam a querer controlar tudo e todos e impôr as regras do jogo, impossibilitando atingir um acordo global. E nessa perspectiva proprietária e egocêntrica, nem daqui a 100 anos será possível cumprir o sonho de Eric “pirata” Klepstone: uma plataforma disponibilizando músicas para samplar mediante um sistema de micro-pagamentos ou de subscrições. Tal feito seria como alcançar a paz no Médio Oriente, como comentou apropriadamente Battelle.

A posição das grandes labels fica bem explícita quando Battelle questionou Munns a propósito da ríspida reacção da EMI face ao “Gray Album”: “Não se trata de uma questão de danos, mas de direitos dos artistas.” E isto para uma indústria que tem como lema “disponibilizar aos consumidores a música que eles querem, quando a querem e como a querem”! A bem da verdade, porém, é preciso acrescentar que no caso do mashup de Dangermouse foram os Beatles que não gostaram que alguém tivesse mexido com o seu trabalho.

A questão é que, se formos a ver bem, o cozinhado musical daquele DJ despertou o interesse de uma nova geração de melómanos por músicas como “Dear Prudence” – ouçam Allure, faixa 9 do “Gray Album” – que de outro modo lhes passariam ao lado. Tal como as pessoas da minha geração começaram a apreciar mais os Beatles quando ouviram a versão de 1983 dos Siouxsie & The Banshees. A verdade é que nesta era de recombinação e copy&paste total, quando aplicadas ao domínio da cultura, medidas draconianas semelhantes às tomadas pela EMI apenas servem para gerar acções de protesto como a Grey Tuesday. Sam Howard-Spink escreveu um artigo excelente sobre este novo tipo de activismo cultural. A grande lição a retirar é que todo o artista que não valoriza a reapropriação criativa das suas obras não merece, em último lugar, o apreço dos seus fãs.

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