Num post anterior referi o filme brasileiro “Cafuné” para mostrar como o cinema independente pode tirar partido das redes P2P como tecnologia de distribuição de modo a chegar a um público potencial que de outro modo não teria acesso a esse tipo de produção. Neste caso, o director Bruno Vianna realizou também vários finais alternativos e permitiu que os utilizadores editassem as suas próprias versões domésticas da fita. Essa estratégia heterodoxa gerou uma maior repercussão junto dos internautas. A mensagem foi disseminada “boca-a-boca”, mail a mail, post a post, tipo marketing viral.
Mas este não é o único caso de adaptação da filosofia do open-source e a distribuição P2P a um tipo de produto cultural tão complexo em termos de autoria e exigindo investimentos elevados como o cinema. O Juan Guerra apresentou alguns desses projectos no seu blog que eu gostaria de repegar aqui. O mais conhecido até agora foi o filme de animação Elephants Dream, uma curta-metragem lançada em Março deste ano que foi totalmente concebida com software livre/open-source como o editor de imagens GIMP e o programa de animação, modelação e rendering a três dimensões Blender.
Aliás, a fita resultou de um esforço conjunto entre o Orange Movie Team de Amesterdão e a Blender Foundation, a entidade responsável pelo desenvolvimento do Blender. O objectivo do filme foi, precisamente, demonstrar ao grande público as capacidades criativas de aplicações de código-fonte aberto como essa. Desta forma, também funcionou como um instrumento de promoção do Blender. Até porque, graças à licença Creative Commons adoptada, qualquer pessoa pode fazer o download completo da obra e de todos os ficheiros empregues na produção via BitTorrent. Daí terem rapidamente surgido várias remisturas. O que é mais surpreendente é que, ao contrário de “Cafuné”, que necessitou do apoio estatal, “Elephants Dream” foi em grande parte financiado pelos espectadores. Cerca de um ano antes do lançamento da animação, a Fundação Blender começou a vender encomendas prévias do DVD contendo cenas adicionais.
“A Boy Who Never Slept” é outro projecto cinematográfico que trilha a senda do open-source e P2P. Trata-se da primeira longa metragem do cineasta Solomon Rothman e versa sobre um escritor que sofre de insónias e da sua relação com uma adolescente que encontra na Internet. “O que começa como uma mera amizade evolui para um amor improvável rodeado por uma dura realidade”. No site, Rothman inclui links para o streaming e download do filme numa série de formatos e locais diferentes. Todos os ficheiros originais utilizados na produção do vídeo final estão disponíveis sob licença CC aqui, incluindo o PDF do argumento, a banda sonora e os efeitos áudio.
Para além das narrativas de ficção, o cinema online colaborativo também já chegou a outros géneros. Stray Cinema é um projecto que propõe aos utilizadores o download e re-edição de um conjunto de filmagens não tratadas registadas em Londres – pelo que vi do trailer, o filme combina o estilo de um documentário com o de um videoclip. O público pode colocar no site uma versão remisturada de dois minutos dessas cenas para ser sujeita a votação pela comunidade online. Os cinco vídeos mais votados serão mostrados durante um evento especial a decorrer em Londres. No final, os organizadores irão também elaborar uma antologia das 30 submissões mais votadas que será enviada a todos os principais festivais de cinema do mundo.
Com “A Swarm of Angels”, esta lógica de crowdsourcing aplicada ao mundo do cinema é ampliada a uma escala acentuadamente comercial. Neste projecto, a inversão face ao modelo hierárquico, fechado e centralizado de Hollywood nota-se tanto a nível do processo de financiamento como da produção do filme. Ao contrário de todos os filmes anteriores, “A Swarm of Angels” permite a participação externa desde o momento da recolha de fundos, passando pela concepção de argumentos alternativos – através de uma wiki, como mandam as regras da Web 2.0 – até à promoção, distribuição e remixagem do produto final. A própria equipa de filmagens deverá ser composta por elementos da comunidade online. Pretende-se que o financiamento do filme, com um orçamento de um milhão de libras (cerca de 1,5 milhões de euros), seja obtido através de doações individuais de 50 mil pessoas no valor de 25 libras (37 euros). Neste momento, o número de contributos já é superior a 700.
A ideia partiu do inglês Matt Hanson, director, produtor e teórico de cinema digital, e conta com o apoio de estrelas da blogosfera como Cory Doctorow e Wareen Ellis. A banda sonora estará a cargo do grupo de “reciclagem” Pop The Kleptones. A estratégia de disseminação do buzz e do hype passa também pela realização periódica de inquéritos e votações online relativos a aspectos promocionais do filme. Uma dessas votações teve a ver com o slogan do projecto. “Remixing cinema” foi o escolhido, ficando “people powered cinema” em segundo. Outras propostas foram “cinema 2.0″ e “making movies easy”. Mostrando que a equipa por detrás de “The Swarm of Angels” não descura qualquer componente de marketing, o próprio cartaz promocional foi alvo de uma sondagem online – a imagem vencedora foi a que coloco aqui em baixo.

A grande dúvida que se coloca perante o potencial criativo desta nova geração open-source de cinema é a eterna distinção entre livre e grátis. Tal como no campo do código informático, onde reina a oposição entre a concepção comunitária do software livre da Free Software Foundation e a visão mais empresarial do open-source segundo a Open-Source Initiative, existe também uma divergência entre os partidários da adopção de licenças que pemitam a utilização para fins comerciais e os que advogam o direito de poderem impedir que outros possam lucrar com as modificações introduzidas às suas criações. Dos quatro projectos que referi aqui, três adoptaram uma licença Creative Commons de carácter não-comercial, sendo o “Elephants Dream” é a única excepção.
O caso do “A Swarm of Angels” é ainda mais gritante, uma vez que se trata de uma iniciativa montada desde o início com intuitos comerciais, sendo inteiramente concebida graças à contribuição dos utilizadores. Ao não autorizar que todos os membros da comunidade tirem financeiramente partido da criação, está-se automaticamente a criar um fosso entre uns poucos privilegiados e a grande maioria, remetida a um guetto não-comercial. Ora, como se pode ler num dos comentários a um artigo do OpenBusiness sobre o filme, isso acaba por ser contraproducente para um projecto que pretende fomentar uma cultura da remistura. É claro que, no final, a decisão de ser mais uma ovelha no rebanho do “crowdsourcing” é sempre uma questão de ética pessoal…
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Olá,
Estou lançando um blog sobre cinema asiático e gostaria de convidar todos para conhecê-lo:
http://asiancinema.blig.ig.com.br/
Valeu!