Quando a “pirataria” se torna um modelo de negócio

by Miguel Caetano on 11 de Outubro de 2006

Se não os podes vencer junta-te a eles… Finalmente, depois de vários anos a tentar acabar com a “pirataria” mediante a instauração de inúmeros processos judiciais, a indústria de entretenimento parece ter-se dado conta de que o melhor é entrar em acordo com as empresas que estão a revolucionar o sistema tradicional de distribuição dos media antes que o Google arrebanhe tudo.

Após a Sony-BMG, Universal e CBS terem no início da semana assinado acordos com a YouTube – ainda antes de o negócio GoogleTube se ter confirmado -, fiquei agora a saber através do P2P Blog que Anne Sweeney, presidente da divisão de televisão da Disney-ABC, afirmou por meias-palavras ao ArsTechnica que os conglomerados multimédia também querem ganhar uns trocos com a partilha de vídeos e música,

“Encaramos agora a pirataria como um modelo de negócio (…) Existe para satisfazer uma necessidade no mercado sentida especificamente pelos consumidores que desejam conteúdos televisivos a pedido e, tal como nós, compete por consumidores através de uma oferta de elevada qualidade, preço e disponibilidade e nós não gostamos desse modelo. Mas compreendemos que é suficientemente eficaz para tornar a pirataria num concorrente cada vez mais importante. E criámos uma estratégia para responder a esta ameaça com formas atractivas e fáceis de utilizar para os espectadores obterem legalmente o conteúdo que querem de nós; por outros palavras, mantendo as pessoas honestas.”

Isto só revela que as vozes que prediziam que a YouTube seria inundada por dezenas de processos judiciais e que acabaria por falir não compreendem bem os mecanismos esquizofrénicos do capitalismo cognitivo. É essa esquizofrenia que explica também o “business model” do Spiral Frog, um serviço gratuito de download de músicas a ser lançado em Dezembro e que irá impingir publicidade aos utilizadores. Até ao momento, o Spiral Frog já garantiu a inclusão dos catálogos da Universal e da Emi.

No fundo, não importa realmente se o que é disponibilizado ao consumidor é oferecido ou de graça ou pago a prestações ou por “unidade”. O que interessa é controlar as torneiras que abastecem de música ou vídeos os gadgets desses consumidores, de modo a que eles entrem numa relação de dependência. O poder de controlo sobre quando, quantas vezes e onde aceder fica sempre do outro lado – e não, não estou a falar do criador. O consumidor tem apenas a permissão de descarregar e consumir. A capacidade de partilhar, modificar obras e efectuar o upload desses Mash-Ups é sempre cerceada.

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domelhor.net
28 de Janeiro de 2008 às 14:38

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1 cleiton 18 de Novembro de 2006 às 22:49

Oi…. eu gostaria de saber se a pirataria, tem ligação com o sistema capitalista…
E se tiver, eu também gostaria de saber o porque e suas consequencias…..

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2 Miguel Caetano 18 de Novembro de 2006 às 23:10

Cleiton:

Ui, esse tema dá pano para mangas. Só no domínio do software, foi recentemente publicado um estudo que confirma aquilo que o movimento do open-source afirmava desde há muito: a pirataria contribui para aumentar os lucros da Microsoft:

A mercadoria pirata cria uma espécie de dependência em relação ao produto proprietário oferecido pela companhia.

Sobre a relação entre a pirataria e as indústrias criativas, existe também um artigo muito bem escrito, contextualizando este problema com a emergência do movimento pela partilha da cultura e do conhecimento.

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